free software in latin america

August 21, 2008

Entrevista: Claudio Filho do BrOffice, Brasil.

Filed under: Free Software — isabela @ 6:46 pm

1. Faz parte do processo de inclusão digital, escolher aplicativos e sistemas que estão traduzidos para a língua nativa dos usuários e que possuem uma comunidade local que possa dar suporte aos usuários. Eu gostaria de iniciar essa entrevista com você contando um pouco do surgimento do BrOffice e a importância desse projeto no Brasil.

O projeto surgiu em 2001, quando iniciei o contato com a comunidade internacional do OpenOffice.org e, em 2002, quando iniciamos efetivamente o trabalho de tradução e a construção da comunidade brasileira como um todo, sempre em caráter voluntário. No início nos chamávamos “OpenOffice.org.br”, com o objetivo de ter trabalhos de “gente nossa para nossa gente”. ;-)

Sobre a importância do projeto para o Brasil, basta pensar que em um país como o nosso, que está buscando melhorar em todos os aspectos (como qualquer outro país em desenvolvimento), têm duas opções, quando se pensa em software de escritório comum para qualquer usuário de informática, que é a compra do M$ Office, que aqui tem um preço médio de R$ 1.500,00, ou ir para ilegalidade, comprando o cd de R$ 10,00.

No primeiro caso, estamos falando de preço *por máquina*, mas se torna um absurdo quando comparamos a questões práticas, como o quanto isto significa em soja ou laranja, produtos que geram empregos, renda e divisas para o país. Para se ter uma idéia, 1 cópia de (M$) Office custa o equivalente a 2 toneladas de soja*, ou pior, a 7 toneladas de laranjas*, aproximadamente. No entanto, estes produtos geram quantos empregos?!! E estes empregos alimentam quantas famílias?! Nesta primeira análise já vemos que soluções como o BrOffice.org são fundamentais para o Brasil.

Além desta questão sócio-econômica, temos a questão tecnológica que é a de migrar para um formato de documento que garanta a liberdade do usuário, como o ODF, padrão de formato de arquivo aberto, reconhecido pela ISO e, recentemente, pela ABNT. Na prática, estou dizendo que quando tu faz o teu texto no editor de texto possa salvá-lo em outro formato que o .doc (ou .docx para as versões mais novas) onde terá certeza que o documento ficará bom *apenas* na suíte de escritório do proprietário deste formato. No caso do BrOffice.org, ele salva os arquivos em formato ODF que, se num futuro quiser mudar de ferramenta, terá opção de escolher entre mais de 30 fornecedores (de ferramentas de escritório/suítes office) e com a certeza que todos teus documentos serão abertos.

* fonte: http://www.cepea.esalq.usp.br


2. Como surgiu a idéia para criar o material de inclusão digital feito pelo BrOffice? Qual o alcance desse material, vocês tem alguma idéia do número de pessoas que o utiliza? Ele esta disponível para download? Quais são as outras formas de distribuição desse material?

Questões sociais são uma das preocupações e prerrogativas da comunidade de código aberto, e não poderia ser diferente de nós. A diferença é que além de termos material de inclusão digital[1], também estamos buscando desenvolver junto às comunidades de usuários do BrOffice.org, os Gubros[2], trabalhos voluntários junto aos telecentros e outras atividades que venham de encontro a idéia de inclusão das comunidades que precisem.

[1]http://www.broffice.org/broo/?q=infobasica
[2]http://www.broffice.org/gubro

3. Qual é a visão do BrOffice quando falamos de ‘Inclusão Digital’?

Vemos em dois momentos: compartilhando conhecimento e organizando a sociedade para ajudar neste trabalho.

No ponto de compartilhamento de conhecimento, isto se dá de diversas formas. Além da criação de material didático como citado anteriormente, também organizamos o material desenvolvido por dezenas de voluntários no Brasil e no mundo, traduzindo muitas vezes, disponibilizando tudo em nosso portal para que as pessoas possam ter em um único lugar a principal ferramenta de produtividade - a ferramenta de escritório (texto, planilha, apresentação, entre outros), material para estudar como usar e tirar melhor proveito desta ferramenta, além de dispor um acervo de modelos e documentos úteis para seu dia-a-dia, como é o caso do Escritório Aberto[3].

[3]http://www.broffice.org/escritorio_aberto

Já no ponto de organização da sociedade, temos a preocupação de sensibilizar os grupos regionais para formar grupos de trabalhos (GTs) q buscam voluntários para desenvolver atividades nos telecentros em seus estados. É um trabalho novo, iniciado neste ano, mas promissor.

4. Quais são as parcerias do BrOffice com o governo Brasileiro? Você pode falar um pouco sobre a parceria com o Ministério da Educação e com projetos de inclusão digital do governo - como o Casa Brasil?

Na realidade não há parcerias, apenas há uma necessidade de um produto e a opção de baixo custo é o BrOffice.org. Nós temos a preocupação, tal como o projeto internacional, em apresentar um produto cada vez melhor e o mais ambientado possível para o nosso usuário.

Aqui, cabe uma colocação sobre a diferença de nome no Brasil em relação aos demais países no mundo. A marca “Open Office” está registrada por uma empresa muito antes de nascer o projeto OpenOffice.org, descaracterizando qualquer má intenção. No entanto, sentindo-se lesada, iniciou um processo de defesa de sua marca, como de direito. Para não termos problemas jurídicos para nossos desenvolvedores e usuários, registramos a marca BrOffice.org e tratamos isto a nível de projeto internacional. Assim, BrOffice?.org *É* a comunidade brasileira do OpenOffice.org e também o produto em pt-BR. Isto pode ser confirmado inclusive no projeto internacional[4].

Desta forma, em nosso trabalho de melhorias, além do trabalho no código, dicionários, entre outras melhorias, também buscamos a integração junto às distribuições Linux, pois para este público, a instalação se dá via repositórios próprios. Foi o caso da distribuição Debian[5] que entendeu o problema no Brasil e hoje oferece o BrOffice.org direto dentro de seus pacotes. A mesma compreensão não é compartilhada pelas distribuições linux comerciais.

[4]http://br-pt.openoffice.org
[5]http://www.debian.org

Apesar de tantos contra-tempos o projeto tem evoluído, sempre com o trabalho voluntário e apoio de algumas instituições como a Celepar, o processamento estadual do Paraná. Parcerias com o Min. da Educação e Casa Brasil, tanto na captação de recursos qto serviços para a ONG BrOffice.org poderia potencializar exponencialmente o desenvolvimento do produto, geração de empregos dentro da comunidade, fixação e ampliação de conhecimento (know-how) no país, sem falar de coisas como combate a exclusão digital e evasão de divisas no país.

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